Manifesto da Juventude pela Revolução
Apelo aos Jovens de todo o Mundo
Adotado por delegados de 19 países na Conferência da Internacional Revolucionária da Juventude, de 28 a 31 de Agosto de 2004 - Paris, França
Nós escrevemos este Manifesto para abrir uma discussão com os jovens do mundo todo que estão dispostos para lutar por seu direito a um futuro.
Em que Mundo vivemos?
Há apenas alguns dias, no Iraque, soldados americanos atiraram em um ônibus escolar lotado de estudantes, sob o pretexto de estarem respondendo ao fogo inimigo. Cinco estudantes iraquianos foram mortos e outros cinco ficaram feridos.
No Afeganistão milhões de crianças não têm acesso à educação e durante os últimos dois anos e meio de ocupação americana, 710 mil jovens afegãos foram recrutados para o exército. De maneira semelhante, em Serra Leoa, Libéria e Uganda, crianças pequenas são comumente usadas como soldados.
Todos os dias na Argélia o povo enfrenta as conseqüências de uma guerra que dura uma década e que resultou em 20 mil pessoas desaparecidas e mais de 200 mil mortes, a maioria de jovens.
Na África do Sul, 20% da população vive com o vírus da AIDS.
No Brasil, 50 mil pessoas são mortas a tiros de bala todos os anos, a maior parte jovens envolvidos com o tráfico de drogas.
Em Bangladesh muitas crianças começam a trabalhar aos 4 anos de idade.
Nos Estados Unidos, 45 milhões de pessoas não têm assistência médica e, em 2003, de acordo com os dados do governo, o número de pessoas pobres subiu de 1 milhão e 400 mil para 36 milhões e 700 mil pessoas (13% da população).
Na Europa, milhares e milhares de postos de trabalho na indústria são fechados todos os meses, quando empresas movem suas fábricas para países como a Polônia, onde a mão de obra é mais barata, resultando em desemprego massivo de jovens.
Na ex-URSS, todas as conquistas da Revolução de 1917 estão sendo desregulamentadas ou privatizadas. Na Rússia, por exemplo, o antigo código de trabalho já foi destruído e na Ucrânia, o governo está tentando privatizar a educação e a saúde.
É exagero dizer que nosso direito de viver está sendo colocado em questão?
Qual é o motivo dessas guerras?
Assim como milhões de jovens, nós estamos aterrorizados com a ocupação do Iraque e com todas as guerras impelidas contra os povos do mundo. Nos aterroriza saber que em 2003, os Estados Unidos gastaram mais de 396 bilhões de dólares para financiar suas intervenções militares. A quem essas guerras beneficiam?
Agora todos sabem que o governo americano estava mentindo sobre as supostas armas de destruição em massa no Iraque. O motivo real da guerra e ocupação é a pilhagem do petróleo e dos recursos naturais do povo iraquiano. E para financiar sua ofensiva contra o Iraque, o governo americano desviou milhões de dólares do orçamento para os hospitais, educação e serviços públicos.
Por que o governo dos Estados Unidos ataca os povos de todo o mundo e seu próprio povo?
O motivo é simples: o governo dos EUA é hoje o principal defensor do sistema capitalista - um sistema no qual as 200 pessoas mais ricas do mundo, de acordo com a própria ONU, acumulam mais riquezas que os 2 bilhões e 400 milhões mais pobres juntos.
Este é um sistema baseado na propriedade privada dos meios de produção, onde um punhado de exploradores e especuladores controlam a vasta maioria da riqueza do mundo.
Este é um sistema onde 2,5 bilhões de seres humanos sobrevivem com menos de 2 dólares por dia.
Este é um sistema que só pode sobreviver através de mais e mais guerras e através de mais e mais exploração.
Guerra, a destruição de nossos direitos, a pilhagem das nações, racismo e outras formas de opressão, o aumento do desemprego, drogas, desespero... tudo isso tem uma fonte: o sistema capitalista.
Mas alguém pode perguntar: É realmente possível uma sociedade melhor?
De acordo com a ONU, "o custo do provimento e manutenção do acesso universal à educação básica para todos, tratamento médico básico para todos, cuidados de maternidade para todas as mulheres, alimentação adequada para todos, água potável e saneamento para todos é de cerca de 40 bilhões de dólares por ano... Isso é menos que 4% da riqueza combinada das 225 pessoas mais ricas do mundo."
Nós estamos lutando pela revolução porque os jovens têm direito à educação, saúde, emprego e paz - e o capitalismo não pode nos oferecer isso!
No Brasil, por exemplo, os camponeses deveriam ter direito à terra. Mas hoje, 8 milhões de famílias de trabalhadores sem-terra vagam pelo campo sem ter o que comer, sendo que 18,3 milhões de hectares dos 22 milhões de hectares de terra cultivável que estão nas mãos dos grandes latifundiários estão completamente improdutivos. Os sem-terra têm tentado ocupar as terras de que precisam para sobreviver... e os latifundiários têm respondido com balas e mais balas.
Isso é aceitável? É aceitável que o Ministro da Reforma Agrária, Miguel Rossetto, que se diz "revolucionário", negue a terra aos camponeses? Apenas 10 mil famílias receberam terra em 2003, em outras palavras, menos que no governo de direita anterior!
Em 2003, sob a administração Rossetto, o número de assassinatos de sem-terra, de acordo com os números do próprio governo, subiu para 60, o dobro do número sob a administração anterior. E quando a justiça decidiu expulsar os sem-terra que tinham ocupado algumas terras, Rossetto declarou: "Nós temos que respeitar as decisões da justiça".
Isso precisa ser dito: Alguém que nega a terra para os camponeses não tem nada a ver com a luta pela revolução.
Nós precisamos de Organizações Independentes para lutar por nossos direitos!
Achamos que a juventude venezuelana e os trabalhadores estão certos quando, no referendo revogatório de 15 de Agosto disseram: "Não! O imperialismo não nos dirá o que fazer! O petróleo pertence à nação, não aos EUA!" E eles também estão certos quando dizem: "Nós apoiamos um governo que dá terra aos camponeses e que usa o rendimento do petróleo para construir novas escolas e hospitais!"
Achamos que a juventude e os trabalhadores da Espanha estavam certos quando tomaram as ruas aos milhões para varrer o senhor-da-guerra Aznar e forçar o novo governo a trazer as tropas espanholas de volta do Iraque.
Achamos que para ter sucesso na luta por nossos direitos, a juventude, da mesma forma que os trabalhadores, precisa de organizações independentes. Essas organizações precisam ser levadas pela própria juventude e ninguém deve tomar nossas decisões por nós.
Abrimos uma discussão: Podem as ONGs (Organizações Não-Governamentais) que estão se multiplicando pelo mundo responder a essa necessidade? Muitos jovens, sem dúvida, se organizam em ONGs porque querem lutar por um mundo melhor.
Mas o próprio Banco Mundial admite que 13% de seu orçamento é destinado para financiar ONGs e que "mais de 70% dos projetos financiados pelo Banco Mundial em 1999 envolveu ONGs e a sociedade civil." (The World Bank and Civil Society, 2000)
É possível se organizar contra uma instituição que planeja a pilhagem das nações através da dívida externa, que impõe privatizações... e ser financiado justamente pela mesma instituição?
Nós discutimos: Podem os Fóruns Sociais "Alterglobalizadores" oferecer uma saída para a juventude livrar-se da guerra e da exploração? É verdade que milhares de jovens participam destes fóruns porque querem lutar contra o imperialismo, mas não é fato que o último Fórum Social Europeu (Paris, Novembro/2003) foi financiado através de uma doação de 500 mil euros do governo francês - o mesmo governo que havia tentado destruir todas as conquistas dos trabalhadores? Além disso, na lista dos patrocinadores do Fórum Social Mundial 2003 de Porto Alegre, Brasil, estava... a Fundação Ford!
É possível combater a "dominação do mundo pelo capital" aliando-se com os capitalistas? É possível exploradores e explorados trabalharem juntos para encontrar soluções comuns?
Quem paga a banda escolhe a música. Não é surpresa que um dos principais líderes dos "alterglobalizadores", ATTAC, declarou: "Nós não propomos substituir o sistema capitalista por outro sistema. Achamos que o sistema capitalista precisa de uma estrutura de regras." (Vybir, 2004)
Claro, nós defendemos todas as regras e leis que protegem nossos direitos e todas as conquistas alcançadas por nossos pais e avós que limitam a exploração. Mas não é justamente o sistema capitalista que está destruindo todas essas regras? Não é este sistema bárbaro que, desrespeitando todas leis e regras, força 250 milhões de crianças a trabalhar todo ano?
Nós, jovens de 19 países, organizamos e autofinanciamos nossa conferência internacional e chamamos os jovens de todo o mundo a discutir este manifesto e se juntar à Internacional Revolucionária da Juventude para lutar:
- Pela retirada imediata de todas as tropas estrangeiras do Iraque, do Afeganistão e de qualquer outro lugar!
- Pelo direito do povo controlar seus próprios recursos, assim como o povo venezuelano está lutando para conseguir!
- Por terra para aqueles que trabalham nela!
- Pelo direito de autodeterminação dos povos, notavelmente o direito do povo palestino retornar às terras de onde foram expulsos!
- Pelo imediato redirecionamento dos bilhões de dólares gastos com o belicismo, para a educação, saúde, emprego, habitação!
- Pela ruptura com as instituições do imperialismo que ditam suas políticas aos povos e nações do mundo (FMI, Banco Mundial, OMC, ONU, União Européia, OTAN, ALCA, NEPAD) e notavelmente, o imediato cancelamento das dívidas externas!
Propomos a todos os jovens e organizações de jovens do mundo todo a se unirem para organizar um Dia Internacional da Juventude Contra a Ocupação do Iraque em 16 de Outubro de 2004. Propomos usar todos os métodos possíveis (manifestações públicas, panfletagens, reuniões, abaixo-assinados) para lutar pelo fim da ocupação.
Se a juventude e os trabalhadores se unirem independentes dos patrões, teremos forças não apenas pra defender as conquistas alcançadas no passado, mas para criar um mundo sem exploração, pobreza e violência. Nós temos um mundo a ganhar. Vamos nos organizar para ganhá-lo!
Pablo Garcia, Julia Gonzalez, Juventud Revolución (Espanha)
Caio Dezorzi, Juventude Revolução (Brasil)
Hannifulah Loyand, Left Radicals of Afghanistan (Afeganistão)
Nazir Gulzar, Aima Mahmood, Progressive Youth Organization (Paquistão)
Michael Jouteux, Jeunesse Révolution (França)
Amine Smail, Mohamed Hamidou, Soraya Illoul, Rezki Maiche, Adjabi Fares, Samia Graiche, Parti des Travailleurs/Workers Party (Argélia)
Coral Wheeler, David Zlutnick, Eric Blanc, Revolution Youth (Estados Unidos da América)
Margarida Pagarete (Portugal)
Pierre Vanhan (Bélgica)
Josué Morachis, Juan Carlos Vargas, Juventud Revolución (México)
Sanzeed Hossain, Federation of Revolutionay Youth of Bangladesh (Bangladesh)
Olena Vesel, Bogdana Babych, Maria Vasylieva, Union "Borotba" (Ucrânia)
Ana Imsirovic, Sinisa Rajkovic (Servia-Montenegro)
Goksen Gurviller, Youth of the Group PGB Sosyalizm (Turquia)
Mohamed Alasri, trade unionist, UNEM (Marrocos)
Paul Vasile, Association for the Emancipation of Workers (Romênia)
Alicia Guerm, Daria Safronova (Rússia)
Victor Moeleso, Revolutionary Organisation of the Socialist Youth of Azania (África do Sul)
terça-feira, 31 de agosto de 2004

